“Um dia, eu já tinha bastante idade, no saguão de um lugar
público, um homem se aproximou de mim. Apresentou-se e
disse: ‘Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que você
era bonita quando jovem; venho lhe dizer que, por mim, eu a
acho agora ainda mais bonita do que quando jovem; gostava
menos do seu rosto de moça do que do rosto que você tem
agora, devastado’.
RECOMENDADO
“O amante”, Marguerite Duras
Marguerite Duras tinha 70 anos quando o relato
sobre sua juventude na Indochina francesa foi publicado em 1984. Essa obra
tardia da autora que estreara na ficção em 1943, com “Os impudentes”, acaba de
certa forma delimitando um novo espaço de recepção à sua obra. Extrapolando os
círculos sofisticados e restritos que há décadas seguiam com atenção sua
carreira, alcançando o inédito sucesso comercial – um best-seller mundial, com
tradução em mais de 40 países, vencedor do Goncourt, o mais importante prêmio literário
francês.
A obra de Duras é caracterizada pela temática
autobiográfica, que torna recorrente a experiência de sua família nos anos
passados na ex-colônia francesa (o atual Vietnã). A mãe viúva, que investe as
economias da família no cultivo de arroz, em terras de qualidade duvidosa. A
proximidade angustiante da pobreza. A dupla de irmãos mais velhos e
antagônicos. É ainda um olhar único, que se diferencia do registro europeu
sobre a vida nas colônias. Duras o subverte, oferecendo o duro retrato de personagens
cuja origem europeia não os protege do duro embate pela sobrevivência.
Seu estilo é uma espécie de manual de escrita
literária, artística. Pode-se ler e reler suas páginas, seguidas vezes, sem que
se encontre uma palavra em excesso, uma imagem mal construída, um clichê que
tenha escapado à vigilância da autora. A perfeição do relato é tamanha, que ao
leitor só parece sobrar uma conclusão: o que Duras narra não só aconteceu
exatamente daquela maneira, mas só aconteceu pela forma que ela nos conta.
Uma narrativa elíptica, repleta de fragmentos, que
ora sugerem, ora explicitam a relação da adolescente branca com seu rico amante
chinês. Que deixa vazar em seus interstícios os ecos daquela sociedade. O
burburinho das ruas, a constante proximidade dos corpos – na rua, nas barcas,
nos restaurantes, sufocante para qualquer estrangeiro. Um contraponto ao
erotismo dessa relação, marcada por sutilezas, detalhes e ambivalências – a
menina que nina homem, sua consciência sobre sua situação familiar. Escrevendo
por caminhos pouco convencionais o universo das relações inter raciais num
mundo que ainda seguia a arcaica ligação metrópole-colônia.
Sugestões
complementares à leitura
Além de escritora, Duras foi uma importante
cineasta, com destaque para “India song”, e o roteiro de “Hiroshima,
meu amor”, de Alain Resnais, que lhe valeu uma indicação ao Oscar, em
1961. “O amante” foi adaptado para o cinema em 1991, por Jean-Jacques Annaud,
criando celeuma pelas cenas explícitas entre a inglesa Jane March e o chinês
Tony Leung. Duras o detestou. O espanhol Enrique Vila-Matas conta em seu
delicioso “Paris não tem fim” sobre
sua temporada passada como inquilino de Duras numa água furtada parisiense. Uma
versão no mínimo inusitada sobre a autora.
100 ANOS DE MARGUERITE DURAS
04/04/2014
Nascida no dia 4 de abril de 1914, a escritora nascida em Saigon (hoje Ho Chi Minh) e radicada na França completaria hoje 100 anos. Autora de uma obra multifacetada que percorre gêneros tão diversos quanto o teatro, o romance e o roteiro de cinema, foi considerada um dos principais nomes do movimentonouveau roman.
O catalão Enrique Vila-Matas narra em Paris não tem fim o início de sua carreira de escritor, quando foi para a capital francesa e alugou um quarto com ninguém menos que Marguerite Duras. A escritora foi marcante – para não dizer fundamental – na formação literária de Vila-Matas, e o mesmo podemos dizer acerca de uma legião de autores que foram inspirados pela prosa única de Duras. Em um ensaio traduzido ao português pela Folha de S. Paulo, Vila-Matas diria:
“Com a escrita de Duras acontece o que ocorre com a primeira frase de A Metamorfose de Kafka. Quando lemos que um jovem funcionário acorda em sua cama transformado num inseto, só temos duas opções: fechar o livro incrédulos e não continuar ou crer nessa estranha verdade de Kafka e continuar lendo. Creio que a escrita de Duras só permite aos leitores duas opções: amar essa escrita ou odiá-la profundamente. Não há meio-termo com ela. Eu a adoro. Tem a beleza do literariamente infinito. A poesia de sua escrita me fascina e por vezes me levou à emoção e ao choro”.
É em homenagem ao centenário de Duras – e aos inícios fortes e impactantes – que transcrevemos abaixo o começo de O amante, obra capital da escritora que foi relançado pela Cosac Naify em edição portátil e e-book:
“Um dia, eu já tinha bastante idade, no saguão de um lugar público, um homem se aproximou de mim. Apresentou-se e disse: ‘Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que você era bonita quando jovem; venho lhe dizer que, por mim, eu a acho agora ainda mais bonita do que quando jovem; gostava menos do seu rosto de moça do que do rosto que você tem agora, devastado’.
Penso com frequência nessa imagem que sou a única ainda a ver e que nunca mencionei a ninguém. Ela continua lá, no mesmo silêncio, fascinante. Entre todas as imagens de mim mesma, é a que me agrada, nela me reconheço, com ela me encanto.
Muito cedo foi tarde demais em minha vida. Aos dezoito anos já era tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos, meu rosto tomou um rumo imprevisto. Aos dezoito envelheci. Não sei se isso acontece com todo mundo, nunca perguntei”.

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